Há certa incoerência quando se tem em mente, de um lado, A República e de outro O Sofista. O primeiro estabelece uma estrutura em cadeia: temos a idéia (eidos), a cópia (eidolon) e a cópia da cópia (phantasma). O segundo, substitui a cadeia pela arborescência: há diferença de natureza entre o objeto manufaturado (realidade) e o objeto pintado (a imagem) e há também diferença de natureza entre imagens, cópias e simulacros. Na república podíamos pensar em uma hierarquia segundo a variação do grau de aproximação, no Sofista a relação estabelece a diferença pela natureza específica de cada pretendente. Nessa perspectiva o simulacro quebra sua relação com a idéia e passa a ser cópia do não-ser, produtor de fantasmas. A inclusão de uma essência e natureza diversas que cindem a hierarquia em O Sofista parece ter por finalidade encurralar os sofistas sem tropeçar nos próprios dentes, ou seja, era preciso que o argumento contra o sofista não se revertesse contra o próprio discurso socrático: a dialética é a garantia do filósofo entrar em contato com a idéia em si, ignorante do método, o sofista pode apenas produzir sua horda de doces fantasmas.
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