Prefácios e texto

O prefácio é a confissão inconfessável de que é necessário que um livro acabe, é preciso dar fim à escrita, mas esse fim nunca é estrutural ou essencial, ele é sempre simulado. A escrita abre a própria escrita - eis o seu destino - e seu fechamento é um ato de resignação aos limites materiais e institucionais do livro - uma invenção, necessária, mas uma invenção. Nesse momente intervém o prefácio, ele não apenas subsume o texto a um método de leitura a ser tomado pelo leitor modelo, que nesse momento é o próprio autor, mas também apara as bordas da escritura, fecha o texto sobre si enquanto paradoxalmente apresenta aquilo que o ultrapassa, o livro que se gostaria de escrever. Realização e fracasso, limite e descentramento andam juntos: o prefácio é a oração fúnebre da escrita.

Antiga incoerência: hipótese da conveniência

Há certa incoerência quando se tem em mente, de um lado, A República e de outro O Sofista. O primeiro estabelece uma estrutura em cadeia: temos a idéia (eidos), a cópia (eidolon) e a cópia da cópia (phantasma). O segundo, substitui a cadeia pela arborescência: há diferença de natureza entre o objeto manufaturado (realidade) e o objeto pintado (a imagem) e há também diferença de natureza entre imagens, cópias e simulacros. Na república podíamos pensar em uma hierarquia segundo a variação do grau de aproximação, no Sofista a relação estabelece a diferença pela natureza específica de cada pretendente. Nessa perspectiva o simulacro quebra sua relação com a idéia e passa a ser cópia do não-ser, produtor de fantasmas. A inclusão de uma essência e natureza diversas que cindem a hierarquia em O Sofista parece ter por finalidade encurralar os sofistas sem tropeçar nos próprios dentes, ou seja, era preciso que o argumento contra o sofista não se revertesse contra o próprio discurso socrático: a dialética é a garantia do filósofo entrar em contato com a idéia em si, ignorante do método, o sofista pode apenas produzir sua horda de doces fantasmas.

Mito, nascimento e morte: uma tautologia

Percebe-se agora de que maneira os poemas épicos de Homero, com a sua coerência formular, constituem as inscrições tardias de uma tradição decadente que perdeu sua força no exercício vivo da palavra. A dobra da palavra escrita só é possível quando a eficácia da própria presença viva do mito que o aedo coloca em presença perde a sua força ou torna-se representável.

Hipótese: Joyce e Kafka

Hipótese a partir do Trabalho da citação: se o leitor precisa de um ponto de acomodação, ponto a partir do qual a sua leitura atingiria a legibilidade e sem o qual ele rejeitaria a leitura, então a literatura moderna explora exatamente uma espécie de subversão desse ponto de ancoragem: Joyce pelo excesso torna as possibilidades de ancoragem infinitas, fazendo, por esse movimento, qualquer ancoragem pontual impraticável ou irrelevante mediante um sistema de remissões infinito; já Kafka faria desaparecer esses pontos de ancoragem por um trabalho com a linguagem que a desequilibrasse, tornando o reconhecimento e a acomodação impossíveis (mesmo em gêneros institucionalizados como a fábula ou o conto de aventura).

Jovens pesquisadores

"O trabalho (de pesquisa) deve ser assumido no desejo. (...) Para que o desejo se insinue no meu trabalho, é preciso que esse trabalho me seja pedido não por uma coletividade que pretende garantir para si o meu labor (a minha pena) e contabilizar a rentabilidade do investimento que faz em mim, mas por uma assembléia viva de leitores em que se faz ouvir o desejo do Outro (e não o controle da Lei)."

Roland Barthes